quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

Quadrado.

Copo gelado,
Intrínsecamente seguro.
Apoiado numa mesa quadrada,
uma quadratura vanguardista.
Golos sucessivos destroem as profundezas.
O sabor sentido pelas narinas largas,
a complexidade do copo,
ou a complexidade de quem lhe pega.
Pega, com a mão confiante.
Somente uma.
O incenso paira no ar,
viciado e gasto pelos meandros infamiliares.
Um copo.
Talvez o fosse, talvez não.

Boa noite.

Sentir o chão por baixo da sola dos sapatos, a postura correcta, o olhar em frente, os passos mecanizados. Primeiro o direito, de seguida o esquerdo… Livro na mão, de lombada azul escura. Às costas, uma mochila quase vazia, um adorno.

Entrou. Cheirava a uns quantos pós, eram-lhe familiares mas ignorou. Foi directo à Gibson, o modelo exacto que sempre quis. Com um elástico encarnado apanhou o cabelo longo, deixando cair junto aos olhos, uma ou duas tiras. Acorde, outro, e outro. Numa folha repleta de rabiscos, escreveu meia dúzia de versos, uma letra profunda, acompanhada por uma melodia fenomenal.

O cheiro semelhante ao tal, o familiar. O fumo e as luzes. O palco e o seu microfone. Choque de baquetas. E um, e dois…E um, e dois e três e… A tarola vibrava, os pratos dançavam. O baixista com um dedilhado nas cordas grossas. Um solo estonteante da guitarra. A sua voz.
O seu olhar parou numa jovem, morena, com um leve toque de batom. Deixou-a. Braços no ar, pingos de suor voavam, t-shirts negras com nomes de grandes bandas estampadas nas costas. Vibravam e o compasso da bateria ia direito aos ouvidos esfomeados.

Palco vazio, luz apagada.

sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

Amena Cavaqueira.

Numa amena cavaqueira interrompida apenas por sorrisos, estavam dois homens de meia-idade, sentados numa mesa de um café da cidade. À sua frente, duas chávenas de café vazias, com a colher à direita e o pacote de açúcar rasgado num dos cantos à esquerda. O cigarro começou a arder. Falavam da politica nacional, do desemprego e da economia rasca que estava a assolar o país. Apresentaram soluções e teorias que, segundo eles, poderiam ter um impacto positivo na conjuntura actual.

Horas passaram. O maço quase vazio. A empregada de balcão havia já recolhido todas as outras mesas e começava agora a passar a esfregona de cabo vermelho pelo chão sujo. Olhava para eles com ar intrigado e inibida por estar sozinha no estabelecimento com dois clientes não habituais.
Meio a medo, aproximou-se da mesa e delicadamente: -Desculpem, eu sei que não é de bom tom mas tenho de lhes pedir que saiam, por favor. A minha hora de expediente já terminou, tenho de ir para casa.

Olharam-na com ar de superioridade e o cavalheiro de bigode respondeu :- Minha cara, não sabe que é falta de respeito interromper uma conversa? – e em jeito de provocação recomeçou – Vejamos, a quem trabalha atrás de um balcão não lhe é exigido um elevado grau de instrução, portanto se achar melhor, eu posso usar uma linguagem mais comum. O outro soltou uma gargalhada seca e olhou de lado a empregada.

Estava magoada, aproximou-se ameaçadoramente dele e sentiu o hálito a tabaco ir contra a sua face jovem. – Queira desculpar a minha falta de estatuto para argumentar com tão ilustres senhores aqui presentes, mas sabe, trabalhar como empregada de balcão não me retira dignidade alguma. A única coisa que me incomoda hoje são dois homens aparentemente instruídos sem qualquer tipo de educação. Isso sim, é um problema. A educação não depende apenas do quão capacitados cognitivamente somos, mas sim de um conjunto de normas e valores que devemos dominar para não sermos desagradáveis com os outros, sim, porque ninguém é mais que ninguém. Decerto não será do seu interesse, mas eu estou aqui porque não nasci num berço de ouro, não tive “padrinhos” competentes nem fui capaz de arranjar um ou dois “tachinhos” que certamente ser-me-iam úteis. Comecei o meu curso mas não o acabei e porquê? Porque os meus pais faleceram num acidente de viação há dois anos, eu saí ilesa, não sei se feliz ou infelizmente. Quem bateu no nosso carro, foi absolvido por ter uma alta patente no Estado. Essa mesma pessoa está a olhar nos meus olhos e consegue ver e sentir a cólera que me vai no peito. E foi graças a esse cabrão educado que não consegui acabar a minha licenciatura. Em suma, peço-lhe que saiam.

O homem tremia perigosamente, matara os pais da miúda e ela sabia-o. Saiu à pressa. Antes de encostar a porta, olhou para ela e pediu desculpa, de dentes cerrados com o orgulho ferido e absolutamente dizimado por uma reles empregada de bar que lhe tinha ensinado o que é sentir culpa e arrependimento.

Depois de saírem, uma lágrima escorreu pelo rosto dela, morrendo nos seus lábios.

domingo, 18 de julho de 2010

Fastio

Já não é cedo e da janela do meu quarto, num prédio alto à frente do meu, há uma luz, a única luz acesa em tantas e tantas janelas.

A persiana está puxada até ao cimo e os cortinados de linho branco completamente arredados. Surge então à janela uma mulher morena, de top vestido e cabelo solto. Debruça-se para apanhar um pouco desta brisa nocturna que refresca o rosto quente. Sentado à mesa, com o jantar diante dele encontra-se o marido, cabelos oleosos, compridos e barba de já algumas semanas. Olhar pesado e rosto marcado. É ainda jovem mas traz com ele algo de muito antigo, não sei se o espírito, talvez. Enquanto jantam não se olham, trocam apenas uma ou duas palavras a cada copo que enchem ou a cada garfada que levam à boca. São frios, arrisco a dizer que nem sequer se amam. Ele levanta-se, limpa os cantos da boca com o guardanapo e vai para outra divisão da casa que não consigo desvendar através da janela do meu quarto. Poucos minutos depois, é a vez de ela acabar. Recolhe os dois pratos e vai. Volta. Recolhe os dois copos e a garrafa de vinho tinto e vai. Volta por fim para se prostrar diante da televisão, a sua única e inseparável amiga. É com ela que desabafa, é a ela que conta os tristes e nada empolgantes momentos do seu dia. A monotonia e a perspicácia da rotina tornaram tudo muito distante do que tinham sonhado para eles. Ele chega sempre tarde, com uma expressão carregada e com pressa de se ir deitar. Ela espera-o, serve o jantar e prossegue pelos meandros rotineiros da sua vida vazia…

Sempre que chega a casa, está dez minutos a observar as crianças que brincam no parque. Quer muito ser mãe, não sabe se com aquele pai.

terça-feira, 22 de junho de 2010

Não sei quem sou

Este banco de jardim não me dá as respostas que tanto anseio ter. Nunca gostei de beber mas hoje tenho uma garrafa de vodka ao meu lado esquerdo, dentro de um pequeno saco plástico preto, só para tentar passar despercebido a alguém que passe aqui por acaso. Estou farto de não saber o que sou, o que sinto ou o que faço neste mundo que não me agrada nem um pouco. O meu outrora forte e alegre espírito está agora reduzido a uma ou duas certezas.

Antes, passava horas e horas neste jardim a ouvir os pássaros cantar, a tentar perceber o seu modo de se exprimirem. Antes, tinha interessantes conversas com os mais batidos em outros assuntos, normalmente de boina na cabeça e bengala presa entre os braços cruzados. Eles sim, sabiam o que era a vida, sabiam qual era a sua “missão”. Agora eu…nada em mim faz sentido, nada mesmo. Não sei quem sou. Julgava saber, julgava ser detentor de uma personalidade forte e de uma força interior capaz de mover montanhas e vales, mares e oceanos. Não sou nem adolescente nem adulto, nem criança nem velho. Esta minha existência dá-me demasiadas dores de cabeça.

Perdi há um mês, mais coisa menos coisa, o meu primeiro emprego. Fui empregado de balcão num café pacato, frequentado maioritariamente por pessoas menos jovens. E agora, corro o risco de perder uma pessoa que me é muito importante. Amo-a com tudo o que tenho. As circunstâncias não são as melhores e a minha falta de predisposição para muita coisa não é um factor positivo. Há dias em que acordo e fico na cama, com o olhar preso no tecto branco, com alguns sinais de humidade e a minha mente divaga sobre assuntos e questões que me são fulcrais. Apetece-me partir, sem rumo e sem destino. Sozinho, sim porque ninguém seria capaz nem de me perceber nem de me acompanhar. Tudo isto me mete nojo. A chuva, o sol, o riso das crianças…tudo me mete nojo!

Gostava de sentir novamente aquele calor terno de um abraço amigo, aquele beijo de despedida entre namorados, aquele olhar das mães quando estão orgulhosas dos filhos. Amava a vida, agora já não. A minha rotina torna-me frágil e facilmente atingível. Quando alguém me pergunta quem sou, respondo: “Bem, sou metade do que era. Sou só mais um filho da puta, cobarde e fraco, à imagem e semelhança de tantos outros”. Não tenho pudor em assumir perante toda a gente. Tenho medo de tudo, não sou nem tão pouco quero ser exemplo para ninguém. Talvez um dia, daqui a uns longínquos anos, seja capaz de perceber quem sou.

Começa a chover, está na hora de voltar.

quarta-feira, 21 de abril de 2010

Conto sobre um velho.

No mais pequeno canto da sala, um velho arrastava o seu passado de um lado para o outro, auxiliado por uma não menos velha bengala de madeira com a letra "R" gravada no punho gasto. As suas mãos calejadas pela sua companheira de sempre, traduziam facilmente a sua vida. Parou, poisou a bengala no soalho poeirento e puxou para si uma cadeira de baloiço. Sentou-se, descalçou os sapatos e deixou respirar os pés.
Estava sozinho, e por aqueles dias a única coisa capaz de o fazer sorrir eram aquelas duas crianças que lhe chamavam avô e que o apertavam intensamente cada vez que entravam numa correria harmoniosa, pela porta da casa. O copo, sempre cheio de uma bebida que depois de tantas vezes lhe escorrer pela garganta, ele não conseguia descrever, caiu da pequena mesa á sua esquerda. Sem vontade de se debruçar para o apanhar, ignorou-o. Por segundos, a mão direita abandonou a sua companheira e retirou da algibeira uma fotografia antiga. Era impossível contar o número de dedadas que ocupavam aquela desgastada recordação. Fitou a fotografia como todos os dias fitava e os olhos depressa lacrimejaram. Tirada há mais de sessenta anos, aquela era para ele uma relíquia. Tantos e bons amigos ali estavam, porém um destacava-se por ter tido um dia, a capacidade de ler o seu pensamento e amparar o sofrimento que o corrompia.
Ali, amava-o tanto ou mais como no segundo em que a objectiva roubou a alma áqueles pequenos corpos jovens. Todos tinham um risco de esferográfica sob os olhos, esta foi a forma que o velho encontrou para eliminar todos aqueles que tinham já sucumbido. Desses, apenas dois eram detentores de um olhar "limpo" que espelhava o que sentiam. Um, pequeno e gordo, outro, de cabelos loiros e sedosos, com um sorriso rasgado pela alegria da sua infância. Esse, o António, era o único que ainda não o tinha abandonado naquela viagem.
Guardou-os no bolso, e todos ficaram presos na profundidade dele...Só um continuou sentado á sua frente com o mesmo sorriso de miúdo. Nada disseram, encheram os copos de um bom abafado, levantaram vagarosamente o corpo pesado e olharam-se nos olhos. Um abraço terno quebrou a barreira já por si frágil que os separava. Após tantos e tantos anos, continuavam a ser a metade de um, e a metade do outro.




Ao António.

quinta-feira, 8 de abril de 2010

A praia.

Os pés enregelavam, eram 4 da madrugada e a maresia caía sobre ele sem pedir licença. Precisava de vaguear sem destino, procurar por entre a infinitude da noite algo que lhe desse razões para sorrir… O que tinha naquele momento não lhe era suficiente. As ondas pareciam querer expulsá-lo dali, até a areia o magoava por entre os dedos. Sentou-se e acompanhou o rebentar de cada onda como se fosse a última coisa que estava a ver. Não havia amanhã, perdeu tudo o que conquistou, o amor feriu-o no seu mais profundo refúgio. Decidiu entrar no mar, despiu tudo o que tinha consigo, não apenas a roupa…A água fria foi incapaz de o demover da sua missão. Pé ante pé caminhou…Já não sentia nenhum osso do seu corpo, foi nadando até não poder mais. A solidão e a tristeza eram as suas duas companheiras de viagem, olhou para trás em busca da costa mas estava longe de mais. Sem fôlego, desistiu e não se debateu. Afinal de contas era aquilo que queria, a tal saída que ansiava. Afundou a alma marcada pelo sofrimento de toda uma vida e mesmo antes de libertar o último suspiro, um peixe passou por ele, como que confirmando o que ia acontecer. O que construíra estava a perder-se por entre a espuma, e o coração cedeu. Aquela praia venceu-o.