segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Equinócio.

Numa pequena vila situada no sul de Itália, um quarentão, de cabelo grisalho e estatura respeitável, caminhava nas ruelas estreitas. Virou à direita, depois à esquerda, em frente e novamente à direita. Empurrou uma porta de vidro antiga e entrou. Estantes imponentes, repletas de artefactos centenários e uma mulher morena sentada atrás de uma secretária de cerejeira.

O lápis de carvão dançava nos seus apontamentos, um tango, talvez uma valsa. Era o único cliente e decidiu percorrer os corredores obscuros. De uma a uma, observou cada relíquia muito embora não se sentisse atraído por nenhuma delas. Contudo, e após uma incessante busca do nada, a ponta dos dedos tocou um cálice dourado, preenchido por umas quantas inscrições árabes que formavam um círculo na base. Com a manga da camisa negra retirou o pó, e por uma quantia simbólica levou-o para casa.

Viajou de táxi até ao prédio rústico onde passava a maioria dos seus dias. Subiu dois andares a correr e sentou-se no sofá.
Intrigado com o objecto perdeu algumas horas na tentativa de encontrar qualquer tipo de informação, um pormenor, um detalhe que talvez fosse insignificante. Nada. Deitou-se e a frustração queimava-lhe os olhos sempre que tentava adormecer.

No dia seguinte, de manhã cedo, telefonou a um velho antropólogo e marcou um encontro. Não queria correr o risco de perder o cálice e optou por levar apenas uma fotografia até ao café onde o homem o esperava, de sobretudo castanho e bigode amarelado, resultado das inúmeras cigarrilhas que fumava diariamente. Perplexo, sussurrou a tradução não se fazendo entender. Disse – "Tens noção do quão valioso isto é?" - Com um gesto respondeu negativamente. O outro recomeçou – "Isto é um cálice que pertence a uma família ancestral árabe, provavelmente a algum sheik, senhor do petróleo e pelo que me parece deve ter herdado este artefacto do tetravô ou algo do género". E sorriu. – "No entanto, vou tentar saber mais".

Uma semana depois, o cálice estava exposto numa prateleira de sua casa. O telefone tocou e segundos depois aceitou a chamada. O velho: – "Nem vais acreditar! Essa pérola que tens em casa, pertence a Al-Shaly e é só o objecto mais valioso que possui. Vale milhões. Aconselho que sejas prudente, já devem estar a caminho dois ou três capangas do Shaly para recuperarem o que lhe pertence".

Desligou a chamada e foi de pronto esconder o cálice. Bateram. Uma sequência de murros secos. Sem obterem resposta, arrombaram a porta e entraram armados com dois punhais. Gritavam e vasculhavam a casa. Dobrado no armário e a suar, o medo invadiu-o. O de mosca avistou-o e quando se preparava para o matar, o quarentão de cabelo grisalho esquivou-se e degolou-o. Faltava um. Cuidadosamente avançou. Ouviu-o na cozinha. Uma cacetada na nuca.
Tremia agora, nervoso e desorientado. Pegou no cálice e fugiu. A cada passo que dava, a cada quarteirão que percorria, a cada golfada que inspirava, sentia-se bem. O que levava, escondido no casaco, não pertencia a ninguém. Era digno de um museu.

Semanas passaram. Encontrou o sítio ideal. Doou o cálice. Queriam pagar-lhe e tornar aquela descoberta pública. Não aceitou o dinheiro nem o reconhecimento.

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

Old Amsterdam

Fez o check out e abandonou o aeroporto. Dominava a língua inglesa na perfeição, não havia problema quanto a isso. Um táxi, hotel mais próximo. Desfez as malas e teve ainda tempo para ler o panfleto informativo que alguém deixou na cabeceira e deixou o quarto para trás. Oriundo de Fafe, era um galã, um verdadeiro macho latino. A tarde foi passada pelas ruas de Amesterdão, de exposição em exposição, de café em café, de olhar trocado em olhar trocado.

Numa esplanada bem no centro da cidade, e depois de pedir uma cerveja gelada, entrou em diálogo mental com uma bela loira de olhos verdes, alta e esguia. Os seios expostos no decote, uma poltrona enigmática. Sorriu para ela, retribuiu-lhe a simpatia e fez o mesmo.
Levantou-se, compôs a camisa branca e avançou. Ingrid com um gesto convidou-o a sentar. Apresentaram-se. Uma mulher de direita, professora de Literatura, 32 anos.

Lençois revoltos, corpos nus. Tomaram banho juntos e foram dar um passeio. Interromperam a caminhada numa espécie de canal de Veneza, agarrou a mão dele e puxou-o para o seu barco. Uma noite regada com um bom vinho e completa com sorrisos e beijos. A letargia da
racionalidade, dessa pseudo consciência, da segurança camuflada, da entrega absoluta.

Uma semana depois, mais uma conquista, esta de teor diferente. Sentiu algo ao qual não estava acostumado quando a deixou. Um sentimento de pertença e saudade. Mas enfim, Portugal.

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

Discurso pouco indirecto.

“Tira a mão do queixo, não penses mais nisso”.
Olha-me nos olhos. Observa a ambiguidade do que nos separa e aprecia a transversalidade do que nos une. Levanta-te e caminha, corre, persegue-me. Não dês importância ao pouco, ao tanto. Não me dou, partilho. Um toque de mãos, um sorriso trocado, a embriaguez da paixão.
Duas horas foram anos. Uma dissertação sentimental, uma abertura ingénua, uma cordialidade falhada. Sabes daquela cumplicidade inata? Aquela que fala por ti, que não te deixa esbracejar, que te agarra firmemente. Um leve beijo, um cheiro, um caminho.

Medíocre romancista, péssimo escritor. Conjugalidade falhada de aspectos fulcrais daquilo. Uma abstracção animada, uma imparcialidade inexistente. Não quero escolher, não posso e não o faço. Escolheste-me tu, arrancado do penedo, salvo da maleita doentia. Eu lá estava, tu lá chegaste. A mão na minha, o vento batendo na cara, o pestanejar abusivo, o bocejar inquieto. Deixa isso. Não ligues à pseudo complexidade do que escrevo, dá importância apenas à simplicidade do que sinto.
Levanta-te e corre, suspira, respira, expira. Sente, fala, transmite. Fica aqui, deixa o resto fechar.

Abre a janela, corre a persiana e vê o sol.

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

Bum.

Abanou-o e disse: “ acorda amor”. Abriu os olhos e uma pinga de suor alojou-se na ponta do nariz. Empurrou os lençóis e levantou-se. Olhou ao espelho o indivíduo que estava à sua frente. Molhou a cara e acalmou. Voltou para a cama e beijou a mulher.

No dia seguinte foi trabalhar e no caminho até ao escritório o sonho que o perturbava há mais de duas semanas fê-lo pensar. A protagonista era Madalena , assassinada numa loja de conveniência do bairro. Dois tiros, sem misericórdia. Ao inicio não deu muita importância, um sonho estranho só isso, mas agora e após tantos dias seguidos começava a sentir-se assustado. Nunca foi grande crente nas premonições e continuou com o seu cepticismo.

Depois das 5h, foi até a um café bastante movimentado na rua transversal à do gabinete. Sentou-se na primeira mesa que encontrou livre, acenou ao empregado, um jovem loiro de olhos verdes e mosca. Pediu um whisky sem gelo e aguardou. Diante de si, José Cardoso Pires. Perdeu-se nos detalhes, nas frases, nos parágrafos, nos capítulos intermináveis e na história mirabolante. Um, dois, três capítulos, regados com um, dois, três copos.
Perdera a noção do tempo, o relógio não parara. Deixou uma nota em cima da mesa e foi apressado para casa. Estranhamente vazia. Não cheirou o jantar, não ouviu o cantarolar da mulher, as luzes apagadas. Tentou ligar-lhe, não atendia. Um tiro!

Correu até à loja ao fundo da rua, não conseguia respirar e estava agora à espera do segundo tiro, o tal do sonho. Metros antes de chegar avistou a silhueta de dois homens através das janelas repletas de autocolantes de grandes marcas. Com um pontapé abriu a porta. Dois homens, de arma em punho. Madalena, estendida no chão puxou-o desesperadamente contra o seu peito, com um olhar. Alvejada no peito, rosto pálido, olhos semi fechados. A fúria foi mais capaz que a lógica insignificante perante aquela ataque. Saltou para cima de um deles, esmurrou-o, esbofeteou-o, levantou-se e com um pontapé fê-lo desmaiar. O outro, ignorou o esforço de poupar outra vida, encheu o peito de ar, repugnou-se com o branco que surrara o seu compincha e disparou. Segundo tiro.

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

Quadrado.

Copo gelado,
Intrínsecamente seguro.
Apoiado numa mesa quadrada,
uma quadratura vanguardista.
Golos sucessivos destroem as profundezas.
O sabor sentido pelas narinas largas,
a complexidade do copo,
ou a complexidade de quem lhe pega.
Pega, com a mão confiante.
Somente uma.
O incenso paira no ar,
viciado e gasto pelos meandros infamiliares.
Um copo.
Talvez o fosse, talvez não.

Boa noite.

Sentir o chão por baixo da sola dos sapatos, a postura correcta, o olhar em frente, os passos mecanizados. Primeiro o direito, de seguida o esquerdo… Livro na mão, de lombada azul escura. Às costas, uma mochila quase vazia, um adorno.

Entrou. Cheirava a uns quantos pós, eram-lhe familiares mas ignorou. Foi directo à Gibson, o modelo exacto que sempre quis. Com um elástico encarnado apanhou o cabelo longo, deixando cair junto aos olhos, uma ou duas tiras. Acorde, outro, e outro. Numa folha repleta de rabiscos, escreveu meia dúzia de versos, uma letra profunda, acompanhada por uma melodia fenomenal.

O cheiro semelhante ao tal, o familiar. O fumo e as luzes. O palco e o seu microfone. Choque de baquetas. E um, e dois…E um, e dois e três e… A tarola vibrava, os pratos dançavam. O baixista com um dedilhado nas cordas grossas. Um solo estonteante da guitarra. A sua voz.
O seu olhar parou numa jovem, morena, com um leve toque de batom. Deixou-a. Braços no ar, pingos de suor voavam, t-shirts negras com nomes de grandes bandas estampadas nas costas. Vibravam e o compasso da bateria ia direito aos ouvidos esfomeados.

Palco vazio, luz apagada.

sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

Amena Cavaqueira.

Numa amena cavaqueira interrompida apenas por sorrisos, estavam dois homens de meia-idade, sentados numa mesa de um café da cidade. À sua frente, duas chávenas de café vazias, com a colher à direita e o pacote de açúcar rasgado num dos cantos à esquerda. O cigarro começou a arder. Falavam da politica nacional, do desemprego e da economia rasca que estava a assolar o país. Apresentaram soluções e teorias que, segundo eles, poderiam ter um impacto positivo na conjuntura actual.

Horas passaram. O maço quase vazio. A empregada de balcão havia já recolhido todas as outras mesas e começava agora a passar a esfregona de cabo vermelho pelo chão sujo. Olhava para eles com ar intrigado e inibida por estar sozinha no estabelecimento com dois clientes não habituais.
Meio a medo, aproximou-se da mesa e delicadamente: -Desculpem, eu sei que não é de bom tom mas tenho de lhes pedir que saiam, por favor. A minha hora de expediente já terminou, tenho de ir para casa.

Olharam-na com ar de superioridade e o cavalheiro de bigode respondeu :- Minha cara, não sabe que é falta de respeito interromper uma conversa? – e em jeito de provocação recomeçou – Vejamos, a quem trabalha atrás de um balcão não lhe é exigido um elevado grau de instrução, portanto se achar melhor, eu posso usar uma linguagem mais comum. O outro soltou uma gargalhada seca e olhou de lado a empregada.

Estava magoada, aproximou-se ameaçadoramente dele e sentiu o hálito a tabaco ir contra a sua face jovem. – Queira desculpar a minha falta de estatuto para argumentar com tão ilustres senhores aqui presentes, mas sabe, trabalhar como empregada de balcão não me retira dignidade alguma. A única coisa que me incomoda hoje são dois homens aparentemente instruídos sem qualquer tipo de educação. Isso sim, é um problema. A educação não depende apenas do quão capacitados cognitivamente somos, mas sim de um conjunto de normas e valores que devemos dominar para não sermos desagradáveis com os outros, sim, porque ninguém é mais que ninguém. Decerto não será do seu interesse, mas eu estou aqui porque não nasci num berço de ouro, não tive “padrinhos” competentes nem fui capaz de arranjar um ou dois “tachinhos” que certamente ser-me-iam úteis. Comecei o meu curso mas não o acabei e porquê? Porque os meus pais faleceram num acidente de viação há dois anos, eu saí ilesa, não sei se feliz ou infelizmente. Quem bateu no nosso carro, foi absolvido por ter uma alta patente no Estado. Essa mesma pessoa está a olhar nos meus olhos e consegue ver e sentir a cólera que me vai no peito. E foi graças a esse cabrão educado que não consegui acabar a minha licenciatura. Em suma, peço-lhe que saiam.

O homem tremia perigosamente, matara os pais da miúda e ela sabia-o. Saiu à pressa. Antes de encostar a porta, olhou para ela e pediu desculpa, de dentes cerrados com o orgulho ferido e absolutamente dizimado por uma reles empregada de bar que lhe tinha ensinado o que é sentir culpa e arrependimento.

Depois de saírem, uma lágrima escorreu pelo rosto dela, morrendo nos seus lábios.