No mais pequeno canto da sala, um velho arrastava o seu passado de um lado para o outro, auxiliado por uma não menos velha bengala de madeira com a letra "R" gravada no punho gasto. As suas mãos calejadas pela sua companheira de sempre, traduziam facilmente a sua vida. Parou, poisou a bengala no soalho poeirento e puxou para si uma cadeira de baloiço. Sentou-se, descalçou os sapatos e deixou respirar os pés.
Estava sozinho, e por aqueles dias a única coisa capaz de o fazer sorrir eram aquelas duas crianças que lhe chamavam avô e que o apertavam intensamente cada vez que entravam numa correria harmoniosa, pela porta da casa. O copo, sempre cheio de uma bebida que depois de tantas vezes lhe escorrer pela garganta, ele não conseguia descrever, caiu da pequena mesa á sua esquerda. Sem vontade de se debruçar para o apanhar, ignorou-o. Por segundos, a mão direita abandonou a sua companheira e retirou da algibeira uma fotografia antiga. Era impossível contar o número de dedadas que ocupavam aquela desgastada recordação. Fitou a fotografia como todos os dias fitava e os olhos depressa lacrimejaram. Tirada há mais de sessenta anos, aquela era para ele uma relíquia. Tantos e bons amigos ali estavam, porém um destacava-se por ter tido um dia, a capacidade de ler o seu pensamento e amparar o sofrimento que o corrompia.
Ali, amava-o tanto ou mais como no segundo em que a objectiva roubou a alma áqueles pequenos corpos jovens. Todos tinham um risco de esferográfica sob os olhos, esta foi a forma que o velho encontrou para eliminar todos aqueles que tinham já sucumbido. Desses, apenas dois eram detentores de um olhar "limpo" que espelhava o que sentiam. Um, pequeno e gordo, outro, de cabelos loiros e sedosos, com um sorriso rasgado pela alegria da sua infância. Esse, o António, era o único que ainda não o tinha abandonado naquela viagem.
Guardou-os no bolso, e todos ficaram presos na profundidade dele...Só um continuou sentado á sua frente com o mesmo sorriso de miúdo. Nada disseram, encheram os copos de um bom abafado, levantaram vagarosamente o corpo pesado e olharam-se nos olhos. Um abraço terno quebrou a barreira já por si frágil que os separava. Após tantos e tantos anos, continuavam a ser a metade de um, e a metade do outro.
Ao António.
quarta-feira, 21 de abril de 2010
quinta-feira, 8 de abril de 2010
A praia.
Os pés enregelavam, eram 4 da madrugada e a maresia caía sobre ele sem pedir licença. Precisava de vaguear sem destino, procurar por entre a infinitude da noite algo que lhe desse razões para sorrir… O que tinha naquele momento não lhe era suficiente. As ondas pareciam querer expulsá-lo dali, até a areia o magoava por entre os dedos. Sentou-se e acompanhou o rebentar de cada onda como se fosse a última coisa que estava a ver. Não havia amanhã, perdeu tudo o que conquistou, o amor feriu-o no seu mais profundo refúgio. Decidiu entrar no mar, despiu tudo o que tinha consigo, não apenas a roupa…A água fria foi incapaz de o demover da sua missão. Pé ante pé caminhou…Já não sentia nenhum osso do seu corpo, foi nadando até não poder mais. A solidão e a tristeza eram as suas duas companheiras de viagem, olhou para trás em busca da costa mas estava longe de mais. Sem fôlego, desistiu e não se debateu. Afinal de contas era aquilo que queria, a tal saída que ansiava. Afundou a alma marcada pelo sofrimento de toda uma vida e mesmo antes de libertar o último suspiro, um peixe passou por ele, como que confirmando o que ia acontecer. O que construíra estava a perder-se por entre a espuma, e o coração cedeu. Aquela praia venceu-o.
quarta-feira, 24 de março de 2010
Nada.
Cansado deste cinzentismo,
Cansado da força do escuro,
Cansado de tudo.
Há uma impotência brutal em mim...
Não me encontro no auge de coisa nenhuma
E não sou capaz de me erguer do chão pisado por tantos.
Clima inexplicavelmente estranho.
Seria capaz de tanto por tanta coisa,
Embora o corpo nem sempre obedeça.
Olhar em meu redor é a coisa que mais temo
E a nostalgia no seu esplendor, preenche cada centímetro do que respiro.
Lembro o teu toque e o teu calor,
Esses velhos amigos a quem confiava os meus pêsames.
Estranhamente, seria capaz de desenhar a textura da tua língua.
Cada marca e cada sinal teu, eu sei onde está.
Saí vitoriosamente derrotado.
Sou metade do que outrora fui.
Cansado da força do escuro,
Cansado de tudo.
Há uma impotência brutal em mim...
Não me encontro no auge de coisa nenhuma
E não sou capaz de me erguer do chão pisado por tantos.
Clima inexplicavelmente estranho.
Seria capaz de tanto por tanta coisa,
Embora o corpo nem sempre obedeça.
Olhar em meu redor é a coisa que mais temo
E a nostalgia no seu esplendor, preenche cada centímetro do que respiro.
Lembro o teu toque e o teu calor,
Esses velhos amigos a quem confiava os meus pêsames.
Estranhamente, seria capaz de desenhar a textura da tua língua.
Cada marca e cada sinal teu, eu sei onde está.
Saí vitoriosamente derrotado.
Sou metade do que outrora fui.
Lua.
Aqui, é tudo tão luminoso que tenho dificuldade em ver. O primeiro pé pisa uma superfície gelada e o segundo segue-o inconscientemente. Branco, é tudo quanto avisto e a infinita dimensão deste espaço assusta-me e não sei se sou capaz de me desprender daqui. Caminho e uma luz mais forte que qualquer outra que alguma vez conheci,aproxima-se. Antes de ter tempo de me questionar acerca do que se passava naquele momento, o foco partiu em busca do que procurava, deixando-me para trás. As pernas tremem incessantemente mas a vontade é superior e corro sem ser capaz de respirar. Não identifico nada por onde passo, não distingo formas nem contornos mas isso há muito que deixou de ser a minha prioridade. Após tamanha perseguição, a luz interrompe a sua fuga e o riso de uma criança torna o silêncio ensurdecedor. Sobre a sua cabeça, frágil e pequena , aquela luz dissipa-se. Os olhos penetram-me a alma e o seu cabelo parece permanentemente despenteado. Estou frio não de medo, mas de incerteza e dúvida. A única coisa quente naquele perímetro é a mão dela que procura a minha e a aperta com uma força inexplicável. Os seus lábios roxos esboçam um sorriso que me tranquiliza instantâneamente. Sem pensar, beijo a sua testa inocente e suave e a humidade quente da ternura desaparece sem deixar rasto. Onde estará ela? Partiu sem dizer nada...
Acordo, desvio as cortinas com as mãos dormentes e suadas e olho o firmamento.
Nessa noite, a Lua brilhava.
Acordo, desvio as cortinas com as mãos dormentes e suadas e olho o firmamento.
Nessa noite, a Lua brilhava.
sexta-feira, 12 de março de 2010
Nostalgicamente feliz
A brisa suave do sul gela-me o rosto,
Os primeiros raios de sol emergem por entre as nuvens de algodão,
Uma palavra sai sem propósito.
No meio deste nada cheio de tanto, desvendo mistérios
Não sei porque comecei mas estou certo que vou acabar
O cheiro a terra molhada é intenso, o panorama constrangedor.
Que caminho seguir, que escolha fazer...
Estarei eternamente com os olhos fixos no mais alto penedo
Á espera de respostas que jamais virão
Enquanto posso, espero
E quando um dia não puder mais,
Alguém esperará por mim, e essas tais respostas ás minhas angústias
Acabarão por surgir, não para me serem úteis
Mas para serem fulcrais a tantos outros.
Esses outros, vulgares ou especiais não vão saber o que fazer
Mas vão fazer o que sabem, no fundo, o mesmo que eu
Não vão correr, não vão ser capazes de descortinar os seus receios,
Não vão suar uma única gota,
Vão antes sentar-se numa rocha "musgosamente" preenchida e perturbante,
Tal como eu, esperando que outro alguém tome o seu lugar.
Os primeiros raios de sol emergem por entre as nuvens de algodão,
Uma palavra sai sem propósito.
No meio deste nada cheio de tanto, desvendo mistérios
Não sei porque comecei mas estou certo que vou acabar
O cheiro a terra molhada é intenso, o panorama constrangedor.
Que caminho seguir, que escolha fazer...
Estarei eternamente com os olhos fixos no mais alto penedo
Á espera de respostas que jamais virão
Enquanto posso, espero
E quando um dia não puder mais,
Alguém esperará por mim, e essas tais respostas ás minhas angústias
Acabarão por surgir, não para me serem úteis
Mas para serem fulcrais a tantos outros.
Esses outros, vulgares ou especiais não vão saber o que fazer
Mas vão fazer o que sabem, no fundo, o mesmo que eu
Não vão correr, não vão ser capazes de descortinar os seus receios,
Não vão suar uma única gota,
Vão antes sentar-se numa rocha "musgosamente" preenchida e perturbante,
Tal como eu, esperando que outro alguém tome o seu lugar.
quarta-feira, 10 de março de 2010
Sentimento este que me invade,
Que não me deixa senão pensar nela.
Algo no mais profundo interior meu me avisa,
Me faz perceber que há muito mais na vida, este percurso odioso que percorremos,
Que flores e pôr-do-sol.
Deixo-me invadir, afundo-me sem conseguir evitá-lo
Perco-me nas longínquas entranhas que me prendem dentro do meu sujeito.
O pensamento torna-se fraco, a coerência inexistente
Tudo aquilo que tenho (ou tinha) foge-me por entre os dedos...
O que sinto, o meu corpo transmite-o através de olhares vazios e suspiros dolorosamente constantes.
Também sonho, sonhos utópicos
Utópicos porque não tenho a capacidade de os fazer cumprir
E não porque sejam inatingivéis.
Quero manter-me á tona e não me deixar engolir,
Não consigo, o que me consome imperialmente não me deixa sequer esbracejar
Sou fraco mas sou o que sou, penso nela e só nela.
Dava tudo para poder tê-la, e tê-la seria o meu tudo.
Que não me deixa senão pensar nela.
Algo no mais profundo interior meu me avisa,
Me faz perceber que há muito mais na vida, este percurso odioso que percorremos,
Que flores e pôr-do-sol.
Deixo-me invadir, afundo-me sem conseguir evitá-lo
Perco-me nas longínquas entranhas que me prendem dentro do meu sujeito.
O pensamento torna-se fraco, a coerência inexistente
Tudo aquilo que tenho (ou tinha) foge-me por entre os dedos...
O que sinto, o meu corpo transmite-o através de olhares vazios e suspiros dolorosamente constantes.
Também sonho, sonhos utópicos
Utópicos porque não tenho a capacidade de os fazer cumprir
E não porque sejam inatingivéis.
Quero manter-me á tona e não me deixar engolir,
Não consigo, o que me consome imperialmente não me deixa sequer esbracejar
Sou fraco mas sou o que sou, penso nela e só nela.
Dava tudo para poder tê-la, e tê-la seria o meu tudo.
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