As noites claras que partilhamos. O esplendor de paisagens que desenhamos. Descrições rebuscadas numa tela salteada por pincéis que as nossas mãos acarinham. Descrever-te levar-me-ia tempo e exporia em demasia o peito apaixonado. Uma esfera armilar colocada longe de qualquer cena meritoriamente esquecida.
Olhar em frente relaxa-me a face e rouba-me sorrisos. Sorrisos maduros e ternos, sorrisos frescos, rasgados, eternos. Pedir que me abraces é pouco. Suplicar cada beijo, cada toque, cada olhar, é justo.
As palavras ganham autonomia e mal me lembro de as proferir, só de pensar no que dizem. Não estou perdido, pelo contrário, encontro-me hoje seguro do que sou e para onde quero ir. No entanto, o medo teima em refugiar-se no meu interior quente e feliz. Mas não há medo algum que faça sentido nem ocupe lugar em mim. Repetir-me-ei todas as vezes que te sentir ir para bem longe, na esperança de que um dia voltes, com o teu ar majestoso, de menina alegre e simples.
Limpemos a tela, não para apagar o que vivemos, mas para que possamos continuar a pintar nela.
sexta-feira, 6 de maio de 2011
quarta-feira, 2 de março de 2011
Algures em África.
Uma pequena aldeia em nenhures. A savana com o seu cheiro típico. Leões apreciando o seu repasto, hienas cegas de fome rondavam. Longe, a alguns quilómetros um grupo de pretos de rosto pintado e tronco nu, de lanças preparadas, caminhavam agachados por entre a vegetação. Preparavam-se para caçar um javali. Os dentes afiados agitavam a confiança do grupo. Prudentemente formaram um círculo em redor do animal e aguardaram atenciosamente o sinal do chefe. Com um aceno deu a indicação desejada e em simultâneo os dez homens ergueram-se, gritaram e gesticularam. O mais novo, atrás do animal, saltou sobre ele. Tremia de medo, porém o medo transformou-se em força e dominou-o. Um corte na garganta. Agora sim, era adulto, e tinha o mesmo estatuto que os restantes. Quando chegou à aldeia estava já preparado um festejo. O batuque e as danças das mulheres.
Amazónia.
Era o dia. Acordou ou pelo menos saiu da cama de palha, já que não tinha conseguido pregar olho. Sozinho e destemido, peito feito e grande ambição. Estava na cabana mais imponente. O seu pai e irmãos mais velhos recolheram numa tarde folhas de palmeira e dentro colocaram formigas. Depois do cachimbo pôs as mãos naquelas luvas improvisadas e sentiu as pequenas assassinas a palpar território. Foram subindo e picando. Uma dor agoniante que lhe entorpecia os membros e lhe secava a boca. Cinco minutos para superar a fasquia. Segurou-se ao olhar da mãe, chorosamente orgulhosa, estava já longe dali, numa outra esfera, voando sobre as nuvens brancas a caminho do sol que o queimava. Antes de cair, foi libertado daquele sofrimento e foi descendo do sol para a terra. Um colar ao pescoço, uma ovação. Não eram mãos, eram duas bolas encarnadas com marcas de picadas.
Algures em África, novamente.
Faltava uma semana. Depois de correr pela floresta com um tronco de carvalho às costas, descalço, faltava apenas uma última provação. Depois de pestanejar duas vezes a semana chegou e com ela o salto. Uma torre construída à base de ramos verdes e fortes. À medida que a subia, o vento empurrava-o para baixo e cortava-lhe a respiração. Estava no topo, cinquenta metros depois. Ataram-lhe os pés com duas lianas e tinha de saltar, uma queda livre brutal. A meia dúzia de pêlos que tinha no bigode denunciava a sua pequenez. Chorou, não era capaz de saltar de cabeça para a morte. Reconfortado pelos mais velhos, limpou as lágrimas que lhe escorriam pelo rosto, fechou os olhos, inclinou-se para a frente e caiu. Julgava-se morto mesmo antes de saltar. As lianas não o deixaram atingir o solo, por vinte centímetros. Assim que o libertaram chorou de novo, desta vez de alegria. Correu para junto da família em êxtase. Eram tantos que se tornou difícil encontrar um bocadinho para o conseguir beijar e abraçar.
Aos dezoito anos, conduzimos, votamos, erguemos a cabeça e sentimo-nos importante porque somos considerados adultos. Mas será que somos homens?
Uma pequena aldeia em nenhures. A savana com o seu cheiro típico. Leões apreciando o seu repasto, hienas cegas de fome rondavam. Longe, a alguns quilómetros um grupo de pretos de rosto pintado e tronco nu, de lanças preparadas, caminhavam agachados por entre a vegetação. Preparavam-se para caçar um javali. Os dentes afiados agitavam a confiança do grupo. Prudentemente formaram um círculo em redor do animal e aguardaram atenciosamente o sinal do chefe. Com um aceno deu a indicação desejada e em simultâneo os dez homens ergueram-se, gritaram e gesticularam. O mais novo, atrás do animal, saltou sobre ele. Tremia de medo, porém o medo transformou-se em força e dominou-o. Um corte na garganta. Agora sim, era adulto, e tinha o mesmo estatuto que os restantes. Quando chegou à aldeia estava já preparado um festejo. O batuque e as danças das mulheres.
Amazónia.
Era o dia. Acordou ou pelo menos saiu da cama de palha, já que não tinha conseguido pregar olho. Sozinho e destemido, peito feito e grande ambição. Estava na cabana mais imponente. O seu pai e irmãos mais velhos recolheram numa tarde folhas de palmeira e dentro colocaram formigas. Depois do cachimbo pôs as mãos naquelas luvas improvisadas e sentiu as pequenas assassinas a palpar território. Foram subindo e picando. Uma dor agoniante que lhe entorpecia os membros e lhe secava a boca. Cinco minutos para superar a fasquia. Segurou-se ao olhar da mãe, chorosamente orgulhosa, estava já longe dali, numa outra esfera, voando sobre as nuvens brancas a caminho do sol que o queimava. Antes de cair, foi libertado daquele sofrimento e foi descendo do sol para a terra. Um colar ao pescoço, uma ovação. Não eram mãos, eram duas bolas encarnadas com marcas de picadas.
Algures em África, novamente.
Faltava uma semana. Depois de correr pela floresta com um tronco de carvalho às costas, descalço, faltava apenas uma última provação. Depois de pestanejar duas vezes a semana chegou e com ela o salto. Uma torre construída à base de ramos verdes e fortes. À medida que a subia, o vento empurrava-o para baixo e cortava-lhe a respiração. Estava no topo, cinquenta metros depois. Ataram-lhe os pés com duas lianas e tinha de saltar, uma queda livre brutal. A meia dúzia de pêlos que tinha no bigode denunciava a sua pequenez. Chorou, não era capaz de saltar de cabeça para a morte. Reconfortado pelos mais velhos, limpou as lágrimas que lhe escorriam pelo rosto, fechou os olhos, inclinou-se para a frente e caiu. Julgava-se morto mesmo antes de saltar. As lianas não o deixaram atingir o solo, por vinte centímetros. Assim que o libertaram chorou de novo, desta vez de alegria. Correu para junto da família em êxtase. Eram tantos que se tornou difícil encontrar um bocadinho para o conseguir beijar e abraçar.
Aos dezoito anos, conduzimos, votamos, erguemos a cabeça e sentimo-nos importante porque somos considerados adultos. Mas será que somos homens?
segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011
Equinócio.
Numa pequena vila situada no sul de Itália, um quarentão, de cabelo grisalho e estatura respeitável, caminhava nas ruelas estreitas. Virou à direita, depois à esquerda, em frente e novamente à direita. Empurrou uma porta de vidro antiga e entrou. Estantes imponentes, repletas de artefactos centenários e uma mulher morena sentada atrás de uma secretária de cerejeira.
O lápis de carvão dançava nos seus apontamentos, um tango, talvez uma valsa. Era o único cliente e decidiu percorrer os corredores obscuros. De uma a uma, observou cada relíquia muito embora não se sentisse atraído por nenhuma delas. Contudo, e após uma incessante busca do nada, a ponta dos dedos tocou um cálice dourado, preenchido por umas quantas inscrições árabes que formavam um círculo na base. Com a manga da camisa negra retirou o pó, e por uma quantia simbólica levou-o para casa.
Viajou de táxi até ao prédio rústico onde passava a maioria dos seus dias. Subiu dois andares a correr e sentou-se no sofá.
Intrigado com o objecto perdeu algumas horas na tentativa de encontrar qualquer tipo de informação, um pormenor, um detalhe que talvez fosse insignificante. Nada. Deitou-se e a frustração queimava-lhe os olhos sempre que tentava adormecer.
No dia seguinte, de manhã cedo, telefonou a um velho antropólogo e marcou um encontro. Não queria correr o risco de perder o cálice e optou por levar apenas uma fotografia até ao café onde o homem o esperava, de sobretudo castanho e bigode amarelado, resultado das inúmeras cigarrilhas que fumava diariamente. Perplexo, sussurrou a tradução não se fazendo entender. Disse – "Tens noção do quão valioso isto é?" - Com um gesto respondeu negativamente. O outro recomeçou – "Isto é um cálice que pertence a uma família ancestral árabe, provavelmente a algum sheik, senhor do petróleo e pelo que me parece deve ter herdado este artefacto do tetravô ou algo do género". E sorriu. – "No entanto, vou tentar saber mais".
Uma semana depois, o cálice estava exposto numa prateleira de sua casa. O telefone tocou e segundos depois aceitou a chamada. O velho: – "Nem vais acreditar! Essa pérola que tens em casa, pertence a Al-Shaly e é só o objecto mais valioso que possui. Vale milhões. Aconselho que sejas prudente, já devem estar a caminho dois ou três capangas do Shaly para recuperarem o que lhe pertence".
Desligou a chamada e foi de pronto esconder o cálice. Bateram. Uma sequência de murros secos. Sem obterem resposta, arrombaram a porta e entraram armados com dois punhais. Gritavam e vasculhavam a casa. Dobrado no armário e a suar, o medo invadiu-o. O de mosca avistou-o e quando se preparava para o matar, o quarentão de cabelo grisalho esquivou-se e degolou-o. Faltava um. Cuidadosamente avançou. Ouviu-o na cozinha. Uma cacetada na nuca.
Tremia agora, nervoso e desorientado. Pegou no cálice e fugiu. A cada passo que dava, a cada quarteirão que percorria, a cada golfada que inspirava, sentia-se bem. O que levava, escondido no casaco, não pertencia a ninguém. Era digno de um museu.
Semanas passaram. Encontrou o sítio ideal. Doou o cálice. Queriam pagar-lhe e tornar aquela descoberta pública. Não aceitou o dinheiro nem o reconhecimento.
O lápis de carvão dançava nos seus apontamentos, um tango, talvez uma valsa. Era o único cliente e decidiu percorrer os corredores obscuros. De uma a uma, observou cada relíquia muito embora não se sentisse atraído por nenhuma delas. Contudo, e após uma incessante busca do nada, a ponta dos dedos tocou um cálice dourado, preenchido por umas quantas inscrições árabes que formavam um círculo na base. Com a manga da camisa negra retirou o pó, e por uma quantia simbólica levou-o para casa.
Viajou de táxi até ao prédio rústico onde passava a maioria dos seus dias. Subiu dois andares a correr e sentou-se no sofá.
Intrigado com o objecto perdeu algumas horas na tentativa de encontrar qualquer tipo de informação, um pormenor, um detalhe que talvez fosse insignificante. Nada. Deitou-se e a frustração queimava-lhe os olhos sempre que tentava adormecer.
No dia seguinte, de manhã cedo, telefonou a um velho antropólogo e marcou um encontro. Não queria correr o risco de perder o cálice e optou por levar apenas uma fotografia até ao café onde o homem o esperava, de sobretudo castanho e bigode amarelado, resultado das inúmeras cigarrilhas que fumava diariamente. Perplexo, sussurrou a tradução não se fazendo entender. Disse – "Tens noção do quão valioso isto é?" - Com um gesto respondeu negativamente. O outro recomeçou – "Isto é um cálice que pertence a uma família ancestral árabe, provavelmente a algum sheik, senhor do petróleo e pelo que me parece deve ter herdado este artefacto do tetravô ou algo do género". E sorriu. – "No entanto, vou tentar saber mais".
Uma semana depois, o cálice estava exposto numa prateleira de sua casa. O telefone tocou e segundos depois aceitou a chamada. O velho: – "Nem vais acreditar! Essa pérola que tens em casa, pertence a Al-Shaly e é só o objecto mais valioso que possui. Vale milhões. Aconselho que sejas prudente, já devem estar a caminho dois ou três capangas do Shaly para recuperarem o que lhe pertence".
Desligou a chamada e foi de pronto esconder o cálice. Bateram. Uma sequência de murros secos. Sem obterem resposta, arrombaram a porta e entraram armados com dois punhais. Gritavam e vasculhavam a casa. Dobrado no armário e a suar, o medo invadiu-o. O de mosca avistou-o e quando se preparava para o matar, o quarentão de cabelo grisalho esquivou-se e degolou-o. Faltava um. Cuidadosamente avançou. Ouviu-o na cozinha. Uma cacetada na nuca.
Tremia agora, nervoso e desorientado. Pegou no cálice e fugiu. A cada passo que dava, a cada quarteirão que percorria, a cada golfada que inspirava, sentia-se bem. O que levava, escondido no casaco, não pertencia a ninguém. Era digno de um museu.
Semanas passaram. Encontrou o sítio ideal. Doou o cálice. Queriam pagar-lhe e tornar aquela descoberta pública. Não aceitou o dinheiro nem o reconhecimento.
sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011
Old Amsterdam
Fez o check out e abandonou o aeroporto. Dominava a língua inglesa na perfeição, não havia problema quanto a isso. Um táxi, hotel mais próximo. Desfez as malas e teve ainda tempo para ler o panfleto informativo que alguém deixou na cabeceira e deixou o quarto para trás. Oriundo de Fafe, era um galã, um verdadeiro macho latino. A tarde foi passada pelas ruas de Amesterdão, de exposição em exposição, de café em café, de olhar trocado em olhar trocado.
Numa esplanada bem no centro da cidade, e depois de pedir uma cerveja gelada, entrou em diálogo mental com uma bela loira de olhos verdes, alta e esguia. Os seios expostos no decote, uma poltrona enigmática. Sorriu para ela, retribuiu-lhe a simpatia e fez o mesmo.
Levantou-se, compôs a camisa branca e avançou. Ingrid com um gesto convidou-o a sentar. Apresentaram-se. Uma mulher de direita, professora de Literatura, 32 anos.
Lençois revoltos, corpos nus. Tomaram banho juntos e foram dar um passeio. Interromperam a caminhada numa espécie de canal de Veneza, agarrou a mão dele e puxou-o para o seu barco. Uma noite regada com um bom vinho e completa com sorrisos e beijos. A letargia da
racionalidade, dessa pseudo consciência, da segurança camuflada, da entrega absoluta.
Uma semana depois, mais uma conquista, esta de teor diferente. Sentiu algo ao qual não estava acostumado quando a deixou. Um sentimento de pertença e saudade. Mas enfim, Portugal.
Numa esplanada bem no centro da cidade, e depois de pedir uma cerveja gelada, entrou em diálogo mental com uma bela loira de olhos verdes, alta e esguia. Os seios expostos no decote, uma poltrona enigmática. Sorriu para ela, retribuiu-lhe a simpatia e fez o mesmo.
Levantou-se, compôs a camisa branca e avançou. Ingrid com um gesto convidou-o a sentar. Apresentaram-se. Uma mulher de direita, professora de Literatura, 32 anos.
Lençois revoltos, corpos nus. Tomaram banho juntos e foram dar um passeio. Interromperam a caminhada numa espécie de canal de Veneza, agarrou a mão dele e puxou-o para o seu barco. Uma noite regada com um bom vinho e completa com sorrisos e beijos. A letargia da
racionalidade, dessa pseudo consciência, da segurança camuflada, da entrega absoluta.
Uma semana depois, mais uma conquista, esta de teor diferente. Sentiu algo ao qual não estava acostumado quando a deixou. Um sentimento de pertença e saudade. Mas enfim, Portugal.
sexta-feira, 28 de janeiro de 2011
Discurso pouco indirecto.
“Tira a mão do queixo, não penses mais nisso”.
Olha-me nos olhos. Observa a ambiguidade do que nos separa e aprecia a transversalidade do que nos une. Levanta-te e caminha, corre, persegue-me. Não dês importância ao pouco, ao tanto. Não me dou, partilho. Um toque de mãos, um sorriso trocado, a embriaguez da paixão.
Duas horas foram anos. Uma dissertação sentimental, uma abertura ingénua, uma cordialidade falhada. Sabes daquela cumplicidade inata? Aquela que fala por ti, que não te deixa esbracejar, que te agarra firmemente. Um leve beijo, um cheiro, um caminho.
Medíocre romancista, péssimo escritor. Conjugalidade falhada de aspectos fulcrais daquilo. Uma abstracção animada, uma imparcialidade inexistente. Não quero escolher, não posso e não o faço. Escolheste-me tu, arrancado do penedo, salvo da maleita doentia. Eu lá estava, tu lá chegaste. A mão na minha, o vento batendo na cara, o pestanejar abusivo, o bocejar inquieto. Deixa isso. Não ligues à pseudo complexidade do que escrevo, dá importância apenas à simplicidade do que sinto.
Levanta-te e corre, suspira, respira, expira. Sente, fala, transmite. Fica aqui, deixa o resto fechar.
Abre a janela, corre a persiana e vê o sol.
Olha-me nos olhos. Observa a ambiguidade do que nos separa e aprecia a transversalidade do que nos une. Levanta-te e caminha, corre, persegue-me. Não dês importância ao pouco, ao tanto. Não me dou, partilho. Um toque de mãos, um sorriso trocado, a embriaguez da paixão.
Duas horas foram anos. Uma dissertação sentimental, uma abertura ingénua, uma cordialidade falhada. Sabes daquela cumplicidade inata? Aquela que fala por ti, que não te deixa esbracejar, que te agarra firmemente. Um leve beijo, um cheiro, um caminho.
Medíocre romancista, péssimo escritor. Conjugalidade falhada de aspectos fulcrais daquilo. Uma abstracção animada, uma imparcialidade inexistente. Não quero escolher, não posso e não o faço. Escolheste-me tu, arrancado do penedo, salvo da maleita doentia. Eu lá estava, tu lá chegaste. A mão na minha, o vento batendo na cara, o pestanejar abusivo, o bocejar inquieto. Deixa isso. Não ligues à pseudo complexidade do que escrevo, dá importância apenas à simplicidade do que sinto.
Levanta-te e corre, suspira, respira, expira. Sente, fala, transmite. Fica aqui, deixa o resto fechar.
Abre a janela, corre a persiana e vê o sol.
quinta-feira, 27 de janeiro de 2011
Bum.
Abanou-o e disse: “ acorda amor”. Abriu os olhos e uma pinga de suor alojou-se na ponta do nariz. Empurrou os lençóis e levantou-se. Olhou ao espelho o indivíduo que estava à sua frente. Molhou a cara e acalmou. Voltou para a cama e beijou a mulher.
No dia seguinte foi trabalhar e no caminho até ao escritório o sonho que o perturbava há mais de duas semanas fê-lo pensar. A protagonista era Madalena , assassinada numa loja de conveniência do bairro. Dois tiros, sem misericórdia. Ao inicio não deu muita importância, um sonho estranho só isso, mas agora e após tantos dias seguidos começava a sentir-se assustado. Nunca foi grande crente nas premonições e continuou com o seu cepticismo.
Depois das 5h, foi até a um café bastante movimentado na rua transversal à do gabinete. Sentou-se na primeira mesa que encontrou livre, acenou ao empregado, um jovem loiro de olhos verdes e mosca. Pediu um whisky sem gelo e aguardou. Diante de si, José Cardoso Pires. Perdeu-se nos detalhes, nas frases, nos parágrafos, nos capítulos intermináveis e na história mirabolante. Um, dois, três capítulos, regados com um, dois, três copos.
Perdera a noção do tempo, o relógio não parara. Deixou uma nota em cima da mesa e foi apressado para casa. Estranhamente vazia. Não cheirou o jantar, não ouviu o cantarolar da mulher, as luzes apagadas. Tentou ligar-lhe, não atendia. Um tiro!
Correu até à loja ao fundo da rua, não conseguia respirar e estava agora à espera do segundo tiro, o tal do sonho. Metros antes de chegar avistou a silhueta de dois homens através das janelas repletas de autocolantes de grandes marcas. Com um pontapé abriu a porta. Dois homens, de arma em punho. Madalena, estendida no chão puxou-o desesperadamente contra o seu peito, com um olhar. Alvejada no peito, rosto pálido, olhos semi fechados. A fúria foi mais capaz que a lógica insignificante perante aquela ataque. Saltou para cima de um deles, esmurrou-o, esbofeteou-o, levantou-se e com um pontapé fê-lo desmaiar. O outro, ignorou o esforço de poupar outra vida, encheu o peito de ar, repugnou-se com o branco que surrara o seu compincha e disparou. Segundo tiro.
No dia seguinte foi trabalhar e no caminho até ao escritório o sonho que o perturbava há mais de duas semanas fê-lo pensar. A protagonista era Madalena , assassinada numa loja de conveniência do bairro. Dois tiros, sem misericórdia. Ao inicio não deu muita importância, um sonho estranho só isso, mas agora e após tantos dias seguidos começava a sentir-se assustado. Nunca foi grande crente nas premonições e continuou com o seu cepticismo.
Depois das 5h, foi até a um café bastante movimentado na rua transversal à do gabinete. Sentou-se na primeira mesa que encontrou livre, acenou ao empregado, um jovem loiro de olhos verdes e mosca. Pediu um whisky sem gelo e aguardou. Diante de si, José Cardoso Pires. Perdeu-se nos detalhes, nas frases, nos parágrafos, nos capítulos intermináveis e na história mirabolante. Um, dois, três capítulos, regados com um, dois, três copos.
Perdera a noção do tempo, o relógio não parara. Deixou uma nota em cima da mesa e foi apressado para casa. Estranhamente vazia. Não cheirou o jantar, não ouviu o cantarolar da mulher, as luzes apagadas. Tentou ligar-lhe, não atendia. Um tiro!
Correu até à loja ao fundo da rua, não conseguia respirar e estava agora à espera do segundo tiro, o tal do sonho. Metros antes de chegar avistou a silhueta de dois homens através das janelas repletas de autocolantes de grandes marcas. Com um pontapé abriu a porta. Dois homens, de arma em punho. Madalena, estendida no chão puxou-o desesperadamente contra o seu peito, com um olhar. Alvejada no peito, rosto pálido, olhos semi fechados. A fúria foi mais capaz que a lógica insignificante perante aquela ataque. Saltou para cima de um deles, esmurrou-o, esbofeteou-o, levantou-se e com um pontapé fê-lo desmaiar. O outro, ignorou o esforço de poupar outra vida, encheu o peito de ar, repugnou-se com o branco que surrara o seu compincha e disparou. Segundo tiro.
quarta-feira, 12 de janeiro de 2011
Quadrado.
Copo gelado,
Intrínsecamente seguro.
Apoiado numa mesa quadrada,
uma quadratura vanguardista.
Golos sucessivos destroem as profundezas.
O sabor sentido pelas narinas largas,
a complexidade do copo,
ou a complexidade de quem lhe pega.
Pega, com a mão confiante.
Somente uma.
O incenso paira no ar,
viciado e gasto pelos meandros infamiliares.
Um copo.
Talvez o fosse, talvez não.
Intrínsecamente seguro.
Apoiado numa mesa quadrada,
uma quadratura vanguardista.
Golos sucessivos destroem as profundezas.
O sabor sentido pelas narinas largas,
a complexidade do copo,
ou a complexidade de quem lhe pega.
Pega, com a mão confiante.
Somente uma.
O incenso paira no ar,
viciado e gasto pelos meandros infamiliares.
Um copo.
Talvez o fosse, talvez não.
Subscrever:
Mensagens (Atom)